domingo, 28 de novembro de 2010

Crônica de Nós Dois


Ela não sabe ao certo como tudo terminou. Eles tinham uma ligação tão grande, como se perderam dessa maneira? Como tudo terminou em silêncio?
Ele pensava nela e o telefone tocava. Um olhar e ela já sabia o que se passava pela cabeça dele. Eram tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes.
Anos e anos juntos e um belo dia cada um para um lado. Uns diziam já saber que não dariam certo. Outros que era uma fase, logo voltariam.
Não era uma fase. Ele fez as malas e foi. Nunca telefonou, mandou e-mail, nunca procurou. Ela ficou. Pensava nele em todos os momentos, sentia uma falta absurda, mas também não procurou, não telefonou... Eles achavam que o prazo de validade havia vencido. Ela pensou em pedir para ele ficar. Mas estava triste, sozinha. Ficou com medo de ouvir um não. Ficou com medo que se ele ficasse, tudo continuasse igual.
A vida seguiu. Ela com seus amigos, seu trabalho, seus projetos adiados. Os sonhos com ele não iriam acontecer... Era de casa para o trabalho, do trabalho para a caridade, da caridade para a cama repleta de insônias, das insônias para a faculdade de psicologia. Um convidava para sair, outro para um churrasco, os amigos insistiam que ela era bonita, inteligente, merecia seguir em frente, arrumar um novo amor. Ela achava tudo trabalhoso. Não queria conhecer ninguém, namorar ninguém. Estava infeliz. O grande amor tinha saído pela porta e ela nem percebeu. Queria pensar em outras coisas.
Ele provisoriamente voltou a morar com os pais. Saiu de um “casamento” infeliz, onde não havia dialogo, projetos juntos, sonhos. Só havia silêncio. Como eles deixaram chegar naquele ponto? Eles eram tão iguais. Gostavam das mesmas coisas, riam juntos, quando se abraçavam, quando se amavam, parecia que o mundo e os problemas do cotidiano não existiam. Ela agora não estava mais ali... Só havia a lembrança dos momentos felizes. Ele tinha um emprego novo, terminava a faculdade e estava novamente na pista. No início ele até achou excitante não estar preso a compromissos, poder sair, beber com a nova turma de amigos, paquerar e ser paquerado. Mas ainda faltava alguma coisa, havia a sensação de saudade. Será que era dela? Havia aquele vazio. Ele não entendia.
Depois de muita insistência, ela recomeçou a sair. Ia a um show com casais de amigos, saia para jantar, cineminha com aquele amigo que não parava com namorada nenhuma. Alguns caras a convidavam com segundas intenções e ela sempre os dispensava. Eram bonitos, interessantes, mas na eram ele.
Feriadão no sítio da amiga da amiga. Ela não estava animada, mas se não fosse, a amiga era capaz de interná-la. Foi. Muitas pessoas novas, papos desinteressantes, muitas crianças correndo, piscina, churrasco, videokê. Ela pensou como suportaria quatro dias com aquela turma toda? Queria o quarto dela, a cama, as músicas, os livros. Respirou fundo e pensou que as crianças seriam a salvação. Organizou brincadeiras, jogos, e o tempo foi passando. Entre uma criança e outra, ia fugindo do amigo do primo da amiga. Tinham armado para que eles se “conhecessem”. O humor dela ficava azedo com esse tipo de situação. Sim, ela estava sozinha, mas NÃO, ela não estava disponível. Queria viver aquele “luto” à sua maneira. Sem ficar com ninguém, sem conhecer carinhas “interessantes”, sem possibilidades de namoro. Nada. Ela e ela. E as lembranças. A saudade, a vontade de abraçar, sentir o cheiro dele depois do banho, a pele úmida, a risada gostosa que ele dava quando ela fazia uma das suas muitas gracinhas... Coisas que só ELE e mais ninguém poderiam proporcionar. Ela imaginava o que ele estaria fazendo e ele sentia uma ponta de ciúmes ao pensar que ela talvez já tivesse arrumado um novo amor. Ele não viajou. Ficou em casa estudando e assistindo os DVDs que ele nunca assistia com ela. Não estava com pique para som alto ou para passar quatro dias com os novos amigos do trabalho.
Ela olhava para as crianças e sentia uma pressão no peito. Ela quis tanto ter um filho com ele. Olivier. Ela brincava com esse nome. Ele a achava maluquinha. Era o seu modo de tentar achar graça de uma situação que a incomodava muito. E ele nem chegou a saber que ela gostava muito de Filipe, Enzo, Marcos, Ana Carolina, Beatriz. Será que ela teria um filho com outro alguém? Será que ele seria pai de um filho que não seria dela? Ela não ouvia a voz dele há mais de um ano e ainda o queria como pai de seus filhos... Vá entender.
Sábado à noite. Mulherada na cozinha preparando o jantar, criançada correndo para um lado e para outro, homens em emocionantes partidas de buraco. Buzina do lado de fora e mais um convidado para o feriadão chegando. Ele e seus dois filhos pré-adolescentes. Ele divorciado há quase dois anos. Ela o odiou. Ele era um quase cinqüentão, metido a adolescente. Não sabia se fugia mais das investidas dele ou do amigo do primo da amiga. Pelo menos em forma ela ficaria. Humor ela ainda tinha.
Feriadão acabou. A vida seguiu. Ele trabalhando, estudando e tentando não pensar mais nela. Uma cerveja aqui, um futebol ali, um churrasco acolá. Numa dessas idas e vindas, ele conhece uma menina quinze anos mais nova. Prima do amigo do trabalho. Fútil, mas bonita, sem assunto, mas com um beijo maravilhoso. Todos os amigos colocam pilha para o namoro firmar. Firmou e em seis meses ela o pede em casamento. Casam no civil. Vão morar no apartamento que ela recebeu de herança de uma tia rica. Ela não gosta de nada do que ele gosta. Ele gosta de rock e ela de funk. Ele gosta de informática e ela de bolsas fake da Louis Vuitton, ele até gosta da sogra e ela detesta a família dele. Ela começou cinco faculdades e não quis terminar nenhuma. Não quer trabalhar. Os pais ainda dão mesada. Ele joga videogame nas folgas e ela fica na academia o dia inteiro. Ele não gosta de saber das histórias de antes, dos muitos namorados e ela morre de ciúmes da ex dele. A menina quer sair com a galera três, quatro vezes por semana e isso não é mais o momento dele. Será que ele errou? Será que o casamento foi o mais acertado?
Ela passa a encontrar com o divorciado com muita freqüência. Percebe que os amigos estão armando as situações. Deixa acontecer. De chato insuportável, ele passa a ser um cara com assuntos interessantes. Ela sempre gostou de ouvir e ele tem muito para falar. Ele diz que errou no casamento. Conta das mil aventuras e mulheres pós-divórcio, do trabalho como engenheiro, dos filhos. Ele nem é muito bonito, mas ela começa a gostar daquele divorciado meio sem senso de humor, mas gentil. Ficam algumas vezes, viajam juntos outras, mas ela dizia não estar pronta para nada sério.
Estão jantando em um novo restaurante e a ex-cunhada dela com o marido entram. Saudades de ambas as partes. Conversinha daqui e dali. Ela pergunta por ele. A ex-cunhada diz que ele está bem, casado e que a menina está grávida de três meses. O chão sumiu. Ela olhava para a ex-cunhada, mas não conseguia ouvir mais nada. Ela ficou em choque. Casado e esperando um filho? Mas como? E ela? A ex-cunhada percebe. Vão ao banheiro. Ela chora muito. Treme. Não entende. E ela se pergunta por que deixou acabar. Ela ainda o amava. Mas não havia mais como arrumar as coisas. Não conseguia, não sabia como arrumar as coisas. Estava perdida e sozinha. Ela ainda tinha esperanças.
Ele recebeu a notícia da gravidez com frieza. Apesar de não dizer, ele pensou algumas vezes em ter um filho, em casar com a ex. Por que não disse? Por que não planejou? Agora a esposa estava grávida. Ele ia ser pai e a mulher dele era uma completa estranha. Só se davam bem na cama. Também não tinham dialogo. Será que era algum tipo de maldição? Ele ficou meio perdido. Resolveu se concentrar no trabalho e deixar as coisas correrem. Ele estava feliz? Era isso que ele realmente queria? Os pais dele ficaram contentes. Finalmente seriam avós.
Ela ficou dias sem rumo. Culpando-se. Culpando. Não queria mais atender aos telefonemas do divorciado. Em três meses, ela recebeu várias declarações de amor e dois pedidos de casamento. Recusou. Uma amiga, sincera até demais, disse que ela ficaria velha, sozinha, sem filhos, sem amigos. Que ele já estava casado e com filho a caminho e ela vivendo um sonho que não existia mais. Ela chorou. Ligou para o divorciado. Pediu para ele fazer o pedido novamente. Ela aceitou.
Organizaram um casamento de sonhos. Casaram no civil e um amigo os abençoou em uma cerimônia religiosa linda e romântica. Que ela sonhava ser com outro, mas acabou sendo com o divorciado. Muitos convidados. O divorciado sabia que ela amava a outro. Mas aceitava. E ela aceitava amar outro, mas ser amada pelo divorciado.
Seis meses depois e ela finalmente estava grávida. Gêmeos. Filipe e Enzo. Ele teve uma menina, Maria Eduarda. Ele detestava o nome, mas a esposa era muito persuasiva.
Três anos passaram. Ela estava terminando a faculdade, já era dona de dois restaurantes, tinha um marido, dois filhos, casa, cachorro, gato. Ele tinha uma filha, um trabalho em multinacional, ganhava bem, uma esposa alienada, mas bonita, sem cães e gatos. A vida dela era feliz, mas faltava algo. A vida dele era feliz, mas faltava algo. A vida seguiu.
Desde que terminaram, nunca mais se viram, se falaram. Moravam na mesma cidade. Tinham amigos em comum que não falavam para um do outro e vice-versa. Parecia que ela não existia, parecia que ele não existia.
Aniversário do marido. Churrascaria. Mesa repleta. Muitos amigos, família. O marido brincando com os meninos. Ela, olhar perdido, tentando rir das mesmas piadas, das mesmas bobagens. Só os filhos a deixavam realmente feliz.
Aniversário da sogra, aquela que ele até gostava um pouco. Churrascaria. Muitos amigos da esposa, toda a família dela. Maria Eduarda correndo com a Barbie na mão. Ele irritado, tinha parado de fumar e os adesivos pareciam não funcionar. Lembrou que a ex adorava coraçõezinhos de galinha. Fazia descer quase o espeto todo no prato. Riu. Será que ela agora era vegetariana?
A amiga sincera da ex agarra o braço dele. Perguntou o que ele fazia ali e ele diz que era aniversário da sogra. A amiga diz que a ex dele estava comemorando o aniversário do marido. Silêncio. O coração dele acelerou. Depois de tantos anos, será que ele a veria novamente? Ele sabia que ela estava casada e tinha dois filhos. Com nomes que ele gostava. Quantas vezes ele imaginou que os meninos poderiam ser filhos dele. E ela estava ali. E ele estava ali. E agora? Ele resolve ir ao banheiro lavar o rosto, pensar um pouco. Olhou ao redor, churrascaria cheia, não conseguia achá-la. Será que ela ainda era sardentinha? Cabelos compridos, curtos? Quis parar de pensar. Ao entrar no banheiro, foi atropelado por dois meninos correndo e rindo. O pai meio perdido tentava agarrá-los. Eram lindos meninos. Ali ele soube que eram os filhos dela. O mesmo olhar.
A amiga sincera chega com cara assustada e faz sinal. Ela logo pensou que a amiga não tomava jeito mesmo. Sempre nervosa, agitada, falando alto. Provavelmente, agora reclamaria que o garçom não trouxe o gelo que ela pediu ou algo assim. A amiga vai logo dizendo para ela ficar calma. Calma? Mas por quê? As crianças teriam caído? Prendido o pai no banheiro – elas adoravam fazer isso. A amiga fala na lata: Ele está aqui e com a família toda, menos o cão e o gato – ele não os tinha mesmo. Ela fica imóvel. Não sente as pernas. O coração acelera. Ela só ficava assim quando via cobras – ela morre de medo de cobras. Tanto tempo depois do fim e ele ali, com a família toda – menos o cão e o gato, que ele não tinha mesmo. Ela não queria encontrar com ele. Como ela falaria que havia casado e tinha dois filhos? Que era feliz, mas faltava alguma coisa? Que a vida era perfeita, mas não era com ele? Que ela tinha cachorro, gato? Que passava férias em Arraial? Que comemorava o aniversário de casamento sempre com jantares românticos, com viagens? Que o marido era perfeito, mas não era ele? Que ela não era perfeita, mas queria ter sido.
Ele ficou uns vinte minutos no banheiro. Primeiro ficou ouvindo as risadinhas das crianças e o pai falando que eles eram arteiros e bagunceiros iguais à mãe. Ele lembrou que ela era bagunceira mesmo. Adorava dar sustos, fazer rir, dançar, brincar de pique esconde. As crianças deviam ser felizes com aquela mãe, meio mulher, meio moleca. Lembrou do Olivier. Ele até teria um filho com esse nome, desde que fosse com ela. Os três saíram. Ele ficou sozinho.
Sim, ele iria até a mesa dela. Falaria oi, seria cordial com o marido e com todos à mesa. Por que não? Ficaram tantos anos juntos, tinham uma história, feliz e infeliz, mas a história ainda existia. Sim ele iria falar com ela.
O marido volta com as crianças e diz que vai dar um intervalo no jantar e levar as crianças para brincar no parquinho. O marido era um excelente pai, dedicado. Coisa que ele não foi com os outros dois filhos. Foi ausente, austero, rígido. Com os gêmeos não. Trocou fraldas, passou noites em claro. Era o PAI. Presente, carinhoso. Ela não tinha do que reclamar. Havia errado muito no primeiro casamento, com os primeiros filhos. Agora era um novo homem, um novo marido, um novo pai. E ela era uma madrasta gente boa.
Ela ficou perdida em pensamentos. Lembrou da primeira vez que o viu, da sensação de já conhecê-lo, do amor à primeira vista. Da batalha para conquistá-lo. Do jeito diferente dele, da tentativa de entendê-lo, de aceitar as diferenças e as semelhanças. Lembrou da primeira vez que se amaram. Da vontade de nunca mais sair de perto, das manias, do rosto lindo, do ombro que a fazia dormir sem medo. Lembrou das brincadeiras que ainda a faziam rir. Como tudo mudou? Como o silêncio, a ausência e a mágoa dominaram tudo? Onde começou a falta de paciência? Onde o hábito de não conversar começou? Ela voltou a ficar triste... Lembrou que conseguia conversar com todo mundo, ajudava, aconselhava, mas com ele travava. Ela achava que ele a ignorava. Ele a achava impaciente e frágil demais. Ela o achava frio e distante, ele a achava estressada. Ela o admirava, o amava profundamente, mas não conseguia mais externar. Quando ela pedia um abraço, ele ignorava. Ele a amava e admirava. Quando ele pedia um beijo, ela fingia não entender. E assim foi o início do fim. Havia amor, mas não havia mais entendimento. Havia respeito, mais não havia mais tolerância. Ela chegava e ele dormia. Ela dormia e ele chegava. Ele lembrou. Ela lembrou. Ambos ficaram tristes. Ambos sentiam saudade de algo que não sabiam explicar.
Ela olhou para frente e o viu. Ele continuava lindo. Cabelos mais grisalhos. O olhar triste e misterioso continuava. Estava de mãos dadas com uma garotinha linda. O coração acelerava, acelerava. Ele vinha sorrindo. Ela levantou e o abraçou forte. Perguntou quem era princesinha e ele disse que era sua filha. Ela a pegou no colo e disse que ela era linda. Ele perguntou como ela estava. Ela perguntou como ele estava. Silêncio. Estavam bem, era verdade. Felizes. Mas não completamente. Ambos sabiam. A vida seguiu. A mesa toda observava em silêncio.
Poderia ter sido diferente. Faltou conversa. Faltou cumplicidade. A vida seguiu.
Os amigos dela, que já foram amigos dele estavam ansiosos. Sabiam de toda história.
Dois molequinhos lindos corriam. Agarraram nas pernas dela. Maria Eduarda sorriu para eles. O marido chegou, ela os apresentou. O marido sabia quem era aquele homem e o que representava para a mãe de seus filhos. A esposa dele aproximou-se. Não gostou de saber que ela era a ex, mas não demonstrou. Novo silêncio. Agora eram três crianças correndo por entre as mesas.
Despedidas. Sobremesas. Ela em uma mesa com a família, ele em outra com a outra família. Acenaram ao longe. A vida seguiu.
Ele chegou em casa e sentiu o peito apertado. Uma saudade, uma vontade de mudar.
Maria Eduarda pediu para ouvir uma história. Ele sempre contava histórias para sua filha. Ela adormeceu ouvindo a história de uma gatinha manhosa.
Ela chegou em casa. Os meninos continuavam correndo. A bateria não acabava nunca. Ela tinha muita paciência. Sempre quis crianças correndo, brincando, crianças suas. O marido disse que daria banho na duplinha duracell. Ela foi escrever. Ela sempre escrevia. Algumas cartas que não enviava. Crônicas para revistas. Estava escrevendo um livro que tratava de casais que se amam e não se entendem. Amores possíveis que se tornam impossíveis. Ela deixou o texto aberto na tela do micro.
Resolveu continuar a história infantil que escrevia para os filhos. Era uma história linda, que a emocionava. A história de um pingüim que se apaixonou por uma esquilinha. Ele era sério, quase não sorria. Ela era carinhosa, carente. Ele era lindo, ela era sardentinha. Ele a abraçava para dormir. Ela fazia massagens em sua barriguinha. Ela não sabia se ambos teriam um final feliz. Ele saberia? Era simples, mas os bichinhos complicavam a vida.
Ela adormeceu. Sonhou, sonhou. Acordou. Dormia ao lado do seu grande amor. Não foi sonho, foi pesadelo. Ela o acordou e pediu para dormir em seus ombros. Queria sonhar agora, só sonhos bons... Ele era o amor da sua vida. Ela queria voltar a ser o amor da vida dele. Tudo tinha sido um pesadelo. Não havia divorciado, não havia esposa, não havia gêmeos, nem Maria Eduarda.
Ela só queria contar a história toda quando eles acordassem e ele a ouvisse... Ela só o queria por inteiro. Simples assim.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


Ontem li a notícia que uma ciclista havia morrido atropelada por um ônibus em São Paulo. Li rapidamente e lamentei, passei adiante e li sobre a crise, sobre o fim da Favorita, sobre a audiência da Maysa, estréia do BBB 9 e mais um monte de baboseiras.
Podia ter seguido com meu dia, meu trabalho, mas não sei o que me levou a clicar na matéria da tal ciclista novamente mais tarde. Dessa vez a ciclista já tinha um nome "Márcia Regina de Andrade Prado". Li e reli a notícia umas 2 vezes. Fuí ao Google e descobri que a ciclista era uma ativista pelo respeito aos ciclistas no trânsito, participava de eventos, bicicletadas e seguia a vida dela, sem carro, lutando pelo seu direito de ir e vir com sua bike.
Pesquisando no Orkut, o nome virou rosto. Um rosto calmo, tranquilo... E esse rosto me leveu a ver que a Márcia era uma pessoa, uma vida... Filha de alguém, irmã, amiga, tia, esposa, vizinha, cidadã!!!!
Eu ando de bicicleta nos fins de semana. E tenho o hábito de ser sempre o fim da fila - tomo conta dos que estão na frente e sempre aviso quando um carro, moto ou ônibus se aproxima... Sempre foi a minha maior preocupação - um doido pegar um de nós - e vai continuar sendo. Eu evito andar em locais com grande fluxo de carros, respeito as regras para ciclistas, sempre busco andar em locais mais afastados e mesmo assim, já escapei de alguns sustos. São motoristas que passam muito perto, outros que aceleram, uns que jogam o carro, outros que xingam...
Eu também tenho carro. Sou uma motorista consciente. Do tipo que pára para pedestres atravessarem, passa bem devagar por ciclistas, motos, respeita limites, sinalizações... Uns me acham uma chata, outros acham que eu sou raridade, eu me vejo como alguém que respeita a vida, a minha e dos outros.
Meu carro pode ser uma arma e ele mata!!! Não quero ter isso em minha vida, um nome que vira rosto, pessoa, filho, amigo, vizinho... Um nome que morre!!!
O Código Brasileiro de Trânsito, é claro é diz: (art. 201) deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta é infração média e (art. 220) deixar de reduzir a velocidade do veículo de forma compatível com a segurança do trânsito (inciso XIII) ao ultrapassar ciclista é infração grave.
Respeitemos a vida! Respeitemos nossos semelhantes! Nossos amigos, vizinhos, irmãos, desconhecidos!
Motoristas, respeitem os ciclistas. Respeitem seu direito de ir e vir. Uma vida acaba com uma acelerada, uma virada brusca de volante... O pior de tudo é dormir tranquilamente depois de tirar uma vida, mesmo que tenha sido por acidente.
Eu não sou melhor se estou de carro ou não, o ciclista não está me agredindo...
Todo mundo tem que se respeitar, é preciso fazer ver que o trânsito mata, acaba com famílias, sejam eles ciclistas, motoristas de caminhão, ônibus, moto...
Se meu carro esbarrar em um ciclista, fatalmente ele vai pro chão e se a "sorte" não acontecer, ele pode se machucar muito e morrer, assim como aconteceu com a Márcia.
Não vou julgar o motorista do ônibus. Mas que ele tinha o "poder" em mãos, isso ele tinha... Esse esbarrão, esse desequilibrio causou a morte de uma brasileira, de uma massagista, de uma amiga, filha, esposa, ciclista, de uma cidadã.
Acidente? Pode até ter sido, mas que não se repita mais...
Leis severas, regras claras, ciclovias, sinalização e principalmente, punição!!!
Não acredito que a morte de ninguém sirva de lição hoje em dia... Será que alguém realmente muda lendo a notícia da morte de uma desconhecida em um jornal?
Que Deus nos ajude e que sirva de lição sim. Sirva para quem dirige um carro achando que é uma armadura, para quem risca o trânsito sem controle, para quem avança sinal, para quem mata e fica "tranquilo com sua consciência". Porque morte é sempre morte, sendo ela intencional ou não. Acidentes acontecem, eu posso passar por uma situação dessas, dos dois lados, como ciclista ou como motorista. Mas minha formação impediria que eu ficasse tranquila, mesmo por acidente... Que sirva de lição e de alerta.

Para a família e amigos da Márcia, deixo meu abraço. Os votos de força e fé e a certeza que ela estará em um local muito melhor do que aqui.
Márcia, sinto só tê-la "conhecido" dessa maneira. O pouco que sei, é que você era alguém legal, consciente, participativa, digna... Saiba que sua "pedalada" por aqui deixou marcas e não foi em vão...
Abraço e consciência à todos!!!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Petrópolis, Cidade Imperial

Minha cidade, Petrópolis. Histórica, bonita, agradável, com mil opções de lazer, segura... Ops!!! Estava sonhando, sorry... :)

Minha cidade, Petrópolis. Caótica, engarrafada, repleta de apitos e multas, sem vagas para carros, com um Centro louco, com uns quebra-molas que mais parecem rampas de lançamento. Insegura, com calçadas largas, mas com transbordos que mais parecem chiqueirinhos...
Conversava com um cliente na loja há alguns meses e falando da "Obra do Centro Histórico", ele me disse que de nada valia uma "sala linda, com paredes belas, uma TV de 100 polegadas, se não havia um sofá para sentar".
Explicando, de que vale as calçadas amplas, o cabeamento subterrâneo, banquinhos, mesinhas e blá, blá, blá, se a cidade não ficou funcional? E sinceramente, onde está a beleza do Centro? A cidade cresceu, não há um planejamento viário, não há vagas para estacionar, não há embarques e desembarques suficientes, não há respeito pelo cidadão, apenas um falatório insano por quem apoia e aceita essa "desobra"!!
Eu sempre converso com os clientes e a reclamação é geral. A vida diária ficou pior, mais aflitiva e corrida. Às vezes é preciso percorrer 3, 4, 5 estacionamentos até encontrar uma vaga. Quando não é preciso parar muito longe para ir a um banco ou a uma loja.
Sem contar que o movimento do comércio caiu a olhos vistos. Quem é louco de pegar o carro e vir para o Centro fazer uma comprinha, dar uma voltinha?
E Dio Mio, o que são esses quebra-molas do Centro? Alguém consegue me responder? Além de feios, são completamente NADA com NADA!!! Mal feitos, imensos e de um material tosco, que já está cheio de imperfeições!!!
Tem tanta coisa errada, tanta coisa. Será que ninguém vê e questiona?
Uma obra que durou uma eternidade e que quando acaba, só serviu para atrapalhar a vida do petropolitano e dos turistas.
É muito bonitinho fazer aquelas propagandas institucionais, com aqueles modelinhos fajutos elogiando. O que eu gostaria de ver mesmo, é a população real, com suas reclamações, sujestões e questionamentos.
Novo Prefeito, da cidade que amo, por favor, faça alguma coisa. Planeje, discuta com a população, com os comerciantes e mude essa "desobra".
Petrópolis cresceu, têm uma vocação turística mal aproveitada, tem um Centro comercial boicotado com essa obra de reubarnização, que ampliou as calçadas, mas não trouxe mais clientes para o comércio, muito pelo contrário. Está afastando as pessoas do Centro.
Acho que é hora de alguém finalmente falar que está tudo errado e é necessário mudar!!!! Eu darei parabéns pra esse cara!!!
Petrópolis é uma cidade Imperial? Já foi... Hj é uma cidade perdida entre o moderno e a história, entre crescer e preservar, entre o histórico e o funcional. Acho que há espaço para tudo... Para o turismo, para o comércio, para a gastrônomia. Não sou especialista, mas que tudo o que acontece em Petrópolis hj é feito nas coxas, isso é...
Ontem mesmo, pela manhã estive no Centro e não havia alma e à tarde funcionários da prefeitura faziam reparo no asfalto. Causando o que? Retenções, demora, atrasos, buzinas... Por que não fizeram na parte da manhã, onde o transtorno seria menor? Oiiii!!! Tem alguém pensante nessa cidade? Por favor, manifeste-se!!!
Quantas vezes já vi carros de entrega parados atrapalhando o trânsito? Várias e várias vezes e vamos ver sempre... A culpa é do motorista? Em parte sim, mas ele só está jogando com as regras do jogo. Não fizeram uma cidade com calçadas lindas, amplas, modernosas? Por que não pensaram na questão funcional e fizeram cargas e descargas, vagas rápidas, baias de embarque? Alguém dirá, mas tem !!! Sim, tem. Para um cidade de interior, com algumas dezenas de carros é mais do que suficiente. Mas para Petrópolis? Fala sério!
Sinceramente, acho que o mocinho, ou os mocinhos que "pensaram" essa obra estavam lendo algum livro de história e imaginaram a cidade iluminada e repleta de charretes, só pode!!! Porque para carro, não funciona.
Não tem aquele ditado que diz que é pra frente que se anda? É...
O que havia de errado com o Centro antes da obra? Estava feio? Tinha engarrafamentos? Falta de vagas? Sim, tudo isso e muito mais. O que mudou hj? Nada... Tá mais bonitinho, falemos sinceramente. Só que há mais e mais retenções e mais e mais faltas de vagas... Eu quando penso no Centro, penso em falta de ar. Apertado. Irritante. Confuso.
Alguém pensa diferente?